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25 de mar de 2011

Senhorinha




Hoje é um dia especial, daqueles que a gente chora de alegria por ter ganhado uma surpresa inesperada. Senhorinha é algo muito íntimo, cheio de particularidades encontradas por ai... Eu o escrevi integralmente ao som de Summer 78 - Yann Tiersen - Por isso gostaria de pedir, que ao ler o texto a seguir, escute a música pelo youtube. Quero tanto que vocês sintam o que ela me transmite. Peço também que não leiam apenas com os olhos. Queria mandar um abraço especial para o James que sabia da minha criação e só com seus comentários me apoiava a escrever e para Maria das Graças que mesmo sem saber, talvez nem se lembrar mais de mim, me inspirou muito. E é claro todos àqueles que sabem que são importantes para mim e que reconheceram sua essência em alguns trechos.  Boa leitura.


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Senhorinha



Dona Valentina, uma solitária velha tecelã, confiava por linhas fracas e soltas, toda a composição de sua arte. Ela cheirava colo de avó, toques de lavanda e talco. Seus dedos remetiam à fubá. Aroma nostálgico e confortável. Tecia com detalhes e se apegava a eles... Coisas tão bobas, coitada, que só ela dava importância. Roda do destino. Dona Valentina tinha a criação em suas mãos, por isso me encantava tanto. Linhas finas que mantém o elo enfraquecido, que por total tolice ainda estavam ali. Pobre Dona Valentina, dando nó em bica d'água.

Insistia na tradição, afirmara seus laços ali e tinha medo das mudanças. Nunca se casou, muito menos teve filhos. Após a morte de sua mãe, inaugurou sua imersão na solidão. Frequentava à missa aos domingos de manhã, mas já sabia o caminho de cór, não era preciso olhar para os lados. Sobrevivia com sua arte, tecia para os outros a fim de encontrar o fio de sua história. Sei que na verdade tecia para ela mesma, criava laços como se gerasse um filho tamanho cuidado e zelo. E toda hora do parto, da separação, era dolorido.

Morava numa casa grade, com amplo quintal. As janelas sempre fechadas, assim como seu coração. Nos fundos haviam roupas velhas secando, ao lado de uma bacia amassada, meio enferrujada, que servia para lavar as roupas num córrego próximo. Não criava animais, não gostava de ser observada por qualquer coisa viva, dizia que tudo que se meche é traiçoeiro. Até hoje não se acostumara com si, não se reconhecia em espelhos ou reflexos.  Rezava noite adentro, o terço amarelado corria seus dedos cansados em busca da salvação. Acendia  uma vela toda noite para Nossa Senhora das Graças, que ficava no alto da sala, com várias flores de papel envelhecidas e forrinhos de renda. A imagem da santa era antiga, já estava desbotada e com pedacinhos quebrados. Ave Maria cheia de Graça. Mas a redenção é algo interno. Bendita sóis vós entre as mulheres. Na mesma sala havia uma mesa de cedro antigo, com oito cadeiras talhadas. Os cupins eram os únicos a utilizá-la. O chão de madeira apodrecida oferecia perigo ao casarão, que em diversos pontos mantinha buracos e fendas mostrando abaixo o porão frio e úmido. D. Valentina se reconhecia no porão, por isso nunca entrara lá.  Na sala havia um banco de madeira com uma toalha de crochê nude por cima, antigas fotos de seus familiares na parede e um rádio usado que servia de companhia. Tinha pavor à televisão, como já disse odiava que a observassem. A cozinha era unicamente preenchida pelas latas de torresmo guardadas na gordura, sacos de feijão, arroz, laranja e agonia.

Banho aos sábados para ir à missa aos domingos, mas nunca ousara se despir totalmente. Era um pudor. Além de seus falecidos parentes ninguém nunca ouvira sua vozinha falha e rouca. Talvez nem ela saiba mais usar as palavras. Acreditavam na cidade que era muda e ela se fazia de surda e prosseguia seu caminho reto. Acordava ainda de madrugada e começava a tecer, mente ociosa é oficina do diabo, dizia sua mãe. O som da noite despertando era sua música predileta... Diziam que D. Valentina era louca, todos os meninos das redondezas tinham medo dela, pois comentavam que possuía uma espingarda e atirava nas crianças que tentavam roubar seus pés de frutas. Espingarda realmente tinha, era uma herança de seu pai, aliás, único contato direto entre os dois. Tinha de se proteger, era moça de família, sua honra era seu bem mais valioso, mas nunca ousara sequer atirar contra o vento. Almoço de domingo era dia especial, comprava e fazia frango com quiabo... Estava com seu melhor vestido e sentava-se na varanda junto com as árvores.

Quando adormecia, conversava sozinha. Não podia dominar o silencio sempre. Vez ou outra ia à cidade para fazer compras e entregar os pedidos, sempre olhando reto, sem tocar os lábios e apenas afirmava ou negava quando a abordavam. Seu olhar vagava. Dona Valentina fazia jus a seu nome. Quisera alguém ter a coragem de se perder num profundo vale vazio. A mente desobedece ao silêncio, ela deseja gritar e o corpo não possui forças. E os sentidos? Desconhecidos. Sei que seus olhinhos lacrimejam saudade de algo que ela nem conheceu, mas mesmo assim sentiu. Passara pela vida sem nem notar. E em seu âmago emudecido, ela pede somente uma coisa a quem se aproxima: Me abrace forte. Nunca soube o que era isso.

Na noite em que Dona Valentina completava 87 anos olhou para o céu a procura de uma estrela. Os anjos clamavam palmas pra ela, ela sabia. Mesmo assim odiava aniversários. Quando voltou a olhar para o céu percebeu que a lua a observava. A senhorinha sentiu-se perturbada com aquilo, disparou a chorar e abraçar sua solidão em agonia. A lua no alto estava de olho nela, ela queria fazer isso parar. Não gostava que nada a observasse. Começou a respirar forte, incomodada, seu mundinho rodando e seus pés sem chão. A vida não permite ausência. Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte... Parou de repente surpresa! Respirou a noite, sorriu aos céus, foi em direção à lua, gritou para o mundo, dançou com o vento, beijou a terra molhada, tirou toda sua roupa e morreu. Amém.

Dona Valentina conhecera tarde a vida, mas a conhecera. Seu coração frágil disparou em batimentos soltos e leves, ela era livre. Teceu a última linha, seu cordão umbilical e teve o doce prazer de arrebentá-lo. Sua boca seca agora escorria emoção. Era necessário romper os laços de seu mundinho particular, era preciso partir. Rasgar a alma, tirar as coisas do lugar. Tudo agora estava em si. E isso basta. Ponto final. 




_____________________Gustavo Freitas

1 de mar de 2011

Le Petit Prince


"... Vós não sois absolutamente iguais a minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda: Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa :

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos..."