
Nessa rua
Se eu roubei


Camilla - Quarto Capitulo
Yan segurou o rosto de Camilla entre as mãos e a beijou.
Naquele momento o tempo dançou levemente, flutuando pelo ar. Uma divertida e doce brisa sussurrava sorrateiramente nos ouvidos de Camilla. Parecia uma compassa sinfonia. Ela não sentia mais seu corpo, não sabia onde se encontrava, somente tinha a certeza de fazer parte de tudo aquilo. Aos poucos, como uma tímida lua, Camilla ia voltando a si, ainda meio transtornada com a realidade deturpada. Não entendia porque sentia aquilo com alguém que conhecera a tão pouco tempo, que horas atrás era um estranho e que agora conseguia preencher cada detalhe com sua presença. A garota foi corando e admirava Yan com seu profundo e obliquo olhar, até que sorrindo, disse:
- Posso te ligar mais tarde?
- Claro – disse Camilla decididamente.
Desceu do Chevette rapidamente, ainda meio extasiada pela situação ocorrida e quando chegou na portaria de seu apartamento, olhou para trás e disparou um magnífico sorriso que só ela era capaz. Yan buzinou e acelerou o carro, ainda acalentado pelos lábios irreverentes de Camilla. Mal sabia ela que a partir daquele momento havia entrado em um caminho sem voltas. Desconhecia todas suas vontades e desejos. Era guiada por anseios instintivos e singulares. Entregara-se sem saber os motivos, em menos de um dia perdera-se toda em um propósito. Ate ali nunca havia se permitido possuir essa liberdade própria, de deixar suas vontades alheias dominarem sua mente racional. Podia estar se precipitando, mas tinha certeza de que se não fizesse isso, seria pior.
Yan encontrava-se perplexo com o decorrer do dia que havia passado. Parou o carro num mirante próximo de onde se localizava e tentava decifrar suas emoções. A jovem menina conseguia enfeitiça-lo de algum jeito disforme. Sua inocência e fonte de pecados, sua leveza e peso de alma, sua espontaneidade e estilo. Tudo em uma perfeita cumplicidade entre si. Decidira ali, não sabia o que iria acontecer, mas não ia deixar passar alguém tão incomum, provocante e apaixonante. Tudo começou naquele dia que mais parecia uma bela poesia.
- Ai, ai amor... Como eu queria ficar sempre ao seu lado, sempre pertinho da minha namorada linda...
- Namorada? Que isso? Ah... Tipo você ainda é só meu ficante... - dizendo isso Camilla saiu correndo e rindo alto.
- Ah é? Ah é? Deixa eu te mostrar o que é ficante!
Yan pega Camilla no colo e sai correndo com ela nos braços.
_ Para! Para! Me desce Yan! Ta certo eu assumo, eu me rendo! Meu namorado! Meu só meu! Que amo muito!- disse Camilla aos gritos e risos olhando pra Yan.
Yan a beijou e recolocou Camilla no chão. Os dois saíram rindo e brincando nas ladeiras. Camilla lembrou-se com carinho do dia que foi pedida em namoro e recordou-se também do primeiro beijo entre eles. Depois daquele primeiro encontro se ligavam a toda hora e sempre saíam juntos. Foram se aproximando ate o dia que completaram um mês da data do primeiro beijo, quando Yan pediu Camilla
Voltando de suas lembranças, Camilla e Yan resolveram parar em um barzinho aconchegante, para tomarem vinho. Cinco meses atrás nenhum dos dois esperava que o destino fosse tão certo.
Cinco meses que se conheciam e quatro meses de namoro. Se pedissem a Camilla para descrever o que ela sentia ela não conseguiria definir. Nem se juntassem todas as palavras existentes expressariam o sentimento ali formado. Espontâneo, absoluto, abstrato. Logo ela que nunca permitira entregar-se por completo por medo de suas consequências avulsas e desconhecidas, resolvera deixar tudo de lado e simplesmente viver. Ela queria descobrir-se e reinventar-se todos os momentos. Queria recriar tudo para viver uma felicidade clandestina, nas fortes palavras de Clarice Lispector. Camilla lembrou de um trecho de um conto dela que lhe servia bem: “Fingia que não o tinha só para depois ter a surpresa e o susto de tê-lo. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que já ate pressentia, como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor
Voltando se suas reflexões, o casal degustava seu vinho tinto, com voz e violão tocando MPB ao vivo se fundo. O pub era todo rústico, feito integralmente de madeira talhada. Era um lugar aconchegante. Passado algum tempo voltaram ao hotel. Um pouco animados, devido a primeira viajem juntos, pela bebida e pelo ar da cidade tiveram sua primeira noite de amor. Tudo muito calmo e detalhado. Nenhum dos dois hesitara momento algum, apenas se deixaram levar. Yan paralisou ao ver Camilla nua, sua pele branca puro, quase transparente e macia, transbordava certa luz. Camilla era perfeita e hipnotizante, suas curvas delineadas, seu perfume, seu olhar... Tudo minuciosamente desenhado, inigualável. As mãos de Yan percorriam suavemente sobre seu corpo, enquanto a garota se entregava totalmente para aquele que tinha certeza seria o dono de sua historia. A noite foi inesquecível, assim como todos os momentos que passavam juntos. Guiados sempre pela batida única e compassada de seus corações. O poder de Camilla era incomparável, poderia construir um império com um simples olhar. Yan não sabia mais como controlar-se. A menina mulher era sua. Somente sua.
Ah Camilla, Camilla... Mal sabia Yan o que lhe aguardava...
(Continua...)
____________________________________
Até a próxima!
Qualquer semelhança é mera coincidência!
Hahahahahaha....
Ahhh hoje vou no show da Pitty!
Tudoo! Ansioso! Feliz! haaaaaaaaaa
Carpe Diem
..:gUh:..


(Anteriormente)
Alguma coisa iria acontecer. Camilla começou a olhar para os lados desesperada, seu peito doía de ansiedade. Dessa vez viera muito mais forte que antes. Ela queria sair daquele lugar imediatamente. Camilla de repente olhou para frente! Foi quando tudo aconteceu muito rápido...
Uma violenta briga iniciava-se a poucos metros de Camilla. Em apenas alguns segundos, várias pessoas também estavam envolvidas. Muitas caídas pelo chão, gritos apavorados, objetos voando por todo o recinto, gente correndo desesperada. Em pouco tempo aquilo se transformara em um caos generalizado. Os seguranças do local não conseguiam apartar a confusão formada por toda a boate. Camilla que já não estava nada bem se desesperou mais ainda, afobada pela situação e pelo que estava sentindo. Entrara em estado de pânico. Procurou em vão por suas amigas, mas era impossível encontra-las. A garota foi ficando cada vez mais nervosa e com medo. Começou a se sentir muito mal e uma ânsia aprofundou em seu peito... Camilla perdera os sentidos, estava desmaiada no chão.
Camilla não sabia o que lhe havia ocorrido quando acordou. Estava em um lugar desconhecido, sua cabeça doía fortemente... Até tentara se levantar, mas não conseguiu. Observou a sua volta, estava sozinha e se encontrava em uma espécie de quarto mal iluminado. Deitava-se em uma cama de solteiro com um lençol liso de cor forte. Ao lado da cama havia um criado mudo, uma luminária antiga e um livro de cabeceira. No quarto havia vários pôsteres antigos de bandas de rock. Apesar de não muito organizado o local era bastante aconchegante. Ao fundo uma bateria preenchia o local, e ao seu redor vários outros instrumentos musicais espalhados pelo quarto. Nele também havia um guarda roupa com algumas camisetas para fora, uma escrivaninha com muitos papeis em desordem e um notebook ligado com uma musica baixa de fundo. No chão um carpete vermelho dava um charme ao local, juntamente com as cortinas combinando. Camilla tentou se levantar novamente, preocupada em saber onde estava. Mas quando tentou, sentiu tudo rodar e sua cabeça deu uma fincada forte. Voltou para a cama e fechou os olhos. A única coisa que lembrara era da cena da briga e de seu desespero. Pelo que notara já estava amanhecendo e uma fina chuva caía pela cidade. Procurou se concentrar em como fora parar naquele local. Vasculhava sua mente como sempre fazia, em busca de uma resposta. Aquela garota imprevisível, profundamente sensível e autônoma nunca conseguia se responder quando devia. Talvez fosse uma própria arma defensiva de seu organismo, poupar Camilla do comum para surpreendê-la. Nenhum vestígio de segurança lhe fora passado. Ela encontrava-se em um ambiente totalmente desconhecido e um fluxo de ideias insanas percorriam sua mente. Absorta em seus pensamentos nem percebeu a aproximação de um homem ao seu lado.
Ele era visivelmente estiloso... Possuía um cabelo todo desfiado e arrepiado preto. Estava com uma camiseta básica preta, calça jeans e um all star vermelho. Seus delicados traços resplandeciam em um rosto que nem mil palavras conseguiriam agora lhe descrever. Era incomum, único, e de um ar de sedução desigual. Passado alguns instantes, ele virou-se para Camilla e disse:
- Oi, tudo bem? Já esta melhor?
Camilla se assustou repentinamente e abriu os olhos, de inicio tinha se alarmado com a presença masculina ao seu lado, mas sua voz possuía um timbre tão harmonioso e sua aparência era tão irreal que Camilla na mesma hora se tranqüilizou. No momento em que olhou para ele sua cabeça rodou mais forte. E ela sabia que dessa vez não era por causa da tontura. Ele a observava dentro dos olhos, justamente seu ponto fraco. Ela se sentia nua diante daquilo, mas como algo hipnotizante ela não conseguia falar. Estava em outro lugar naquele momento. Uma mescla de vontades e sentidos tomou conta de seu corpo, era como se ela o conhecesse muito tempo. Não sentia medo. Apesar de desconhecido ela sabia que de alguma forma os dois mantinham uma presença secreta, interna, inexplicável. Aquele ar jovial e roqueiro, juntamente com um sorriso que conseguia derrubar ate as mais sólidas barreiras, deixavam-na confusa. Justamente ela que nunca se entregara, nem para si. Ele sorriu mais ainda e se aproximou, perguntando novamente:
- Oi, tudo bem? Já esta melhor?
Camilla voltou a si e sem medir o que falava, vislumbrada sem saber o porque. Demorou um certo tempo, mas enfim surpresa a voz saiu rasgada, com tudo:
- Quem é você? Onde estou? O que aconteceu?
Queria muito não falar nada daquilo, queria demonstrar que apesar de não conhece-lo sentia segurança com sua presença e que toda aquela sensação ansiosa que lhe corrompia havia repentinamente passado. Ele simplesmente sorriu e disse:
- Bom, meu nome é Yan. Eu sou vocalista da banda que estava tocando ontem quando deu aquela confusão. Foi horrível... Mais tarde ficamos sabendo que a briga toda se deu por causa de ciúmes e foi só aumentando. Eu te vi caída no meio da pista e corri para te ajudar. Acho que na queda você bateu a cabeça, mas não tinha ferimentos... Como não consegui encontrar ninguém que te conhecesse, resolvi traze-la para minha casa até você acordar.
Cada palavra que saia de sua boca pareciam uma bela melodia, Camilla estava em um estado de transe inexplicável. Simplesmente disse:
- Ah Certo... Desculpe-me o transtorno, eh...eh... Obrigada...
- Que isso, por nada, era o mínimo que eu podia fazer. Desculpe-me, mas qual o seu nome mesmo?- Disse Yan.
- Camilla - respondeu a garota precisamente, sua única indicação sólida.
- Apesar da forma inusitada que nos conhecemos Camilla, muito prazer! Respondeu o roqueiro.
Camilla soltou um leve suspiro e um olhar de afeição para o seu salvador. Ele se perdeu um pouco meio enfeitiçado com tudo. Ela estava voltando ao normal, seu ar fatal começava a imergir no ambiente. Ela se levantou e mencionou de ir embora, mas como a chuva aumentara e ainda não havia amanhecido completamente Yan a convenceu de ficar mais um pouco. Tomou uma ducha e vestiu um camisão do mesmo, enquanto conversavam como se já se conhecessem há anos. Tomando cafés sentados no carpete, enquanto Yan tocava seu violão, Camilla observava detalhadamente o rapaz que a cada vez mais lhe chamava atenção. Yan tinha um físico normal, era um pouco definido, tinha braços desenvolvidos. Seu jeito atencioso e seu rosto simétrico formavam um conjunto nunca antes conhecido por ela. Comeram alguma coisa e Camilla decidiu ir embora, já passava das duas da tarde, perderam a noção de tempo entre conversas e risos. Ele se ofereceu para leva-la em casa e entrou no Chevette conversível preto de Yan, uma de suas paixões. Quando chegaram próximo da casa de Camilla foram se despedindo e marcando para sair qualquer dia. Enfim, chegando ao destino Yan disse:
- Bom, o que eu tenho a dizer? – Deu um leve suspiro - Nos veremos novamente, eu espero...
- É claro - sorriu um pouco desconcertada.
- Porque alguém que em menos de um dia transforma completamente o estado de uma pessoa, deve ficar ao nosso lado por um bom tempo...
Camilla ficou surpresa e ao mesmo tempo extasiada. Houve um momento de pausa até o momento que Yan disse:
- Você inexplicavelmente, me faz tão bem...
Ele foi se aproximando do rosto de Camilla. Em menos de um segundo passou uma seqüência de sensações estranhas na garota. A medida que Yan se aproximava, seu coração disparava e pensava consigo como podia ser boba ao ponto de mal conhecê-lo e estar confusa. Mas sua vontade era maior, era involuntária... E mais uma vez se surpreendeu consigo mesma.
Yan segurou o rosto de Camilla entre as mãos e a beijou.