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24 de jun de 2010

::: Essência Abstrata


ESSÊNCIA ABSTRATA
(Artigo de opinião apresentado a disciplina Oficina de Textos III)
A natureza humana é algo a ser analisado em seus ínfimos significados. O homem contém em si multidões em frenesi que relutam em busca de uma identidade própria. É necessário estabelecer padrões que caracterizem a massa, de forma a designar grupos de interesse, que acabam marcados por clichês e estereótipos. Cada um assimila parte de um conjunto de idéias presentes no contexto e a partir do conhecimento prévio de outrem. Não há como ser original nesse sentido. Não é possível se destacar do todo social e se criar perante auto-conceitos. Obtém-se um emaranhado de transformações que interagem com o meio e reproduzem os atores sociais para com o mesmo.
Os indivíduos possuem uma pseudo-liberdade de opinião. Conceitos aplicados ao alheio, de forma contínua, criando um espaço vácuo de formadores de idéias pré-estabelecidas, com indícios de inovação. Perante toda a estruturação de uma sociedade capitalista, os meios se deturpam, pincelando com toques sutis de falsidade a realidade que foi discretamente e sorrateiramente imposta por aqueles que detêm em si o poder. Ao nascer já estamos fabricados por uma indústria cultural dominante, e injeta-se uma carga semântica de significados, ligando-nos ao fluxo exacerbado de informações e modelos de comportamentos. Recebemos involuntariamente um manual e segue-se sem escolha tudo que já está pronto e devidamente escolhido nos moldes atualmente globalizados. Resta-nos a racionalidade e o discernimento plausível para questionar essa rede de símbolos assimilados por convenções, e toda a identidade forjada e concomitantemente com espaço para indagar a mesma, a fim de criar uma ilusão de que todos são especiais e únicos.
Para Freud, a natureza humana possui um permanente conflito entre forças antagônicas, no qual tenta buscar um equilíbrio que harmonize as tensões e forças irracionais, oriundas do inconsciente. Assim sendo toda a obra de civilização criada pelo homem é um meio de atenuar as dissipações de seus impulsos fisiológicos, que nos remete a idéia de que viver em uma sociedade livre e sem necessidade de controle estaria fora de cogitação. Uma vez que, caberia a cultura atribuir valores a essa coerção social e domesticar os instintos.
Parece mais provável que cada cultura seja edificada sobre a coerção e a renúncia instintiva; é duvidoso que, sem coerção a maioria dos homens esteja pronta para submeter-se ao trabalho necessário para adquirir novos meios de suportar a vida. A gente tem, eu penso, de contar com o fato de que em todos os homens estão presentes tendências destrutivas e, portanto, anti-sociais e anti-culturais e que, num grande número de pessoas, são bastante fortes a ponto de lhes determinar o comportamento na sociedade. (Freud, cit. por Walker, 1957, p.2).
Todo esse apego e imposição seria então necessário para a convivência em uma sociedade heterogênea. Porém, o que se observa é uma alienação do ser, a ponto de se tornar mais um produto do sistema. Vendem-se ideologias, valores, tradições, com o devaneio de não contestação do que não é essencial ao todo social. A cultura capitalista aloja-se e predomina no imaginário e no contexto em si, tornando-se a responsável pela identidade massificada que se encontra. E a mesma tem como carga semântica a idéia de individualidade, de pessoas especiais, de que tudo é destinado exclusivamente a você, consumidor passivo, que simplesmente aceita todas as condições por comodismo.
Enfim, percebe-se que o individuo se corrompe até para si, buscando formar uma identidade que se destaca, não percebendo que até nesse ideal de individualidade ele já faz parte de um todo, previamente almejado por uma sociedade baseada nos modos de produção capital. Essa força externa reproduz o fluxo que envolve e anestesia o meio, criando uma névoa de ilusões. Esse sincronismo abstrato que reproduz a essência humana, que pode-se afirmar perdeu seu elixir, desfigurou-se num mosaico incompleto e sem sentidos. E como já dizia Clarice Lispector, “E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano”, com suas debandadas formas e experiências. E ainda citando a ilustre escritora: “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada”. Sendo assim vou em busca de uma verdade da qual somente eu faça parte, sabendo que no fundo de minha individualidade singular, estou apenas me tornando mais um em meio à massa deteriorada. Afinal, a essência abstrata humana é mesmo uma criação forjada no meu inconsciente, por mim.
Gustavo de Freitas Ferreira

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